CURIOSIDADES
TRÊS VISÕES DO MAR DE ESPANHA ANTIGO Nicola Falabella I – O DESBRAVAMENTO – A FUNDAÇÃO DO ARRAIAL DO CÁGADO – A HISTÓRIA DE JOÃO MAQUIEIRA E ANTÔNIO JOSÉ DA COSTA – UMA RANCHARIA DE TROPEIROS E SUA FUNÇÃO CIVILIZADORA – O PRIMEIRO ARRUAMENTO: A “RUA NOVA”. . . A tradição aponta o português Antônio José da Costa e o mameluco João Maquieira como os fundadores de Mar de Espanha. São rudes e audazes desbravadores afeitos a toda sorte de dificuldades e privações. Procedem de Borda do Campo e, como tantos outros, vêm em busca daquelas terras ferazes, propícias à agricultura e cuja fama corre já toda a província despertando a cobiça nos aventureiros desiludidos do enriquecimento fácil nas betas e grupiaras. Casados com duas irmãs que os acompanham naquela andança, chegam, certo dia, às margens de um rio. A presença da água inspira confiança aos desbravadores. Os cursos d’água sempre foram elementos fixados do homem à terra. O rio é caminho, fonte de alimentos e meio de defesa. É um rio sinuoso, de águas mansas . . . Notam, com satisfação, a abundância de cágados em suas margens. “Rio Cágado”... Resolvem ficar por ali uns tempos. Derrubam a mata em derredor, erguem uma choupana e, enquanto a sementeira não vinga, vão vivendo da caça e da pesca. A solidão é enervante; mas enfrentam com ânimo forte e resoluto a agressividade natural do ambiente, esperançosos de um futuro compensador. Um dia, porém, se desentendem. . . A desavença é profunda. Sobrepuja o instinto gregário, os laços de parentesco e determina a separação. Desfeita a sociedade. Antônio José da Costa reúne os seus pertences, sobe à sua canoa e desaparece rio abaixo. João Maquieira fica solitário naquele ermo. O tempo rola sobre o incidente. Por fim, entediado já pela solidão a que fora condenado, resolve João Maquieira explorar os arredores, esperançoso de encontrar vizinhos com os quais pudesse estabelecer relações de amizade e comércio. Prepara-se cuidadosamente para a expedição e parte. Vai, também, descendo o rio. Já cansado de viajar, tem sua atenção despertada para uma aspiral de fumaça que, à distância, emerge da mata. Surpreende-se com aquele sinal de vida. Viveria alguém ali? Espicaçado pela curiosidade, aproa a embarcação à margem e penetra na mata. Vai, a custo, rompendo caminho quando ouve um galo cantar. Este segundo sinal robustece a sua suspeita de que por ali vive algum ser humano. Redobra os esforços na pesquisa até deparar uma clareira e, no meio desta, um casinhoto rústico do qual sobe, por entre as árvores, um penacho de fumaça. João Maquieira aproxima-se cautelosamente do casebre e grita pelo dono da casa. À porta da cabana aparece-lhe então, de ar assombrado, um homem barbudo e mal vestido. Entreolham-se longamente. A surpresa os deixa atônitos, sem palavras. João Maquieira está diante de Antônio José da Costa, seu concunhado e antigo companheiro de aventuras. A emoção daquele encontro, em circunstâncias que talvez lhes parecessem miraculosas, faz com que se abracem comovidos e esqueçam a antiga rixa que os separara. Juntos, novamente, prosseguem desbravando a mata e plantando novas lavouras. Antônio José da Costa fizera contacto com outros colonos e conhece tropeiros que por ali passam de tempos em tempos. O devassamento da região vai processando rapidamente. Atraídos pela fertilidade da terra, outros aventureiros já se estabelecem ali por perto, formando colônias, sítios e fazendas que, com o tempo, vão se transformando em povoações vilas e cidades. A primitiva clareira aberta por Antônio José da Costa desdobra-se em lavouras, desde as margens do Cágado até o ribeirão de S. João. No sopé duma colina graciosa, junto ao ribeirão cujas águas se unem às do Cágado dois ou três quilômetros além , surge, certo dia, um rancho de tropeiros. E ao lado do primeiro rancho erguem-se outros, forma-se a “rancharia”. A “rancharia” vai centralizando, aos poucos, os interesses sociais e econômicos dos que trabalham as terras circunvizinhas. O “pouso” transforma-se em “mercado”. Vão dali, no lombo gingante das tropas, o café, o açúcar, o feijão, o milho, o fumo, o toucinho, todos os produtos da terra, que serão, depois, embarcados nos portos de Inhomirim e Estrêla, rumo ao litoral. De volta, trazem os tropeiros o sal de Magé e os artefatos da Côrte e de além-mar, tão do agrado dos prósperos colonos da região. Para os homens, ferramentas, botas de vaqueta, armas e munições. Para as sinhás, veludos, sedas damascos, botinas de duraque, pós, rendas de bilro, tapa-missa, trepa-moleque, grampolas, babados, bichas de orelha, tetéias de ouro, trancelins, óleo de coco para o cabelo, pentes de marfim, mantos de soprilhos, capas de baeta, enfim, todas as tafulices do reino. A rancharia toma a forma de rua. Rua de feira - franca, colorida e movimentada, que atrai o poviléu da redondeza tão logo corre a notícia da chegada de alguma tropa ou de algum mascate dos muitos que, a pé ou a cavalo, vão já percorrendo sítios, fazendas e povoados. Nos ranchos, estirados em almadraques descomodos, mergulhados em redes preguiçosas, os tropeiros retemperam as forças para novas arremetidas, extravasando em cantigas dolentes, ao som de violas ou sanfonas, a paixão de sua vida amorosa e a história de seus atos bravura. . . Refeitas as energias, reaparelhada a tropa. Lá se vão, ao fim de pouco tempo, em busca de outro pouso, batendo, incansáveis, as trilhas e picadas – que eles mesmos abriram a golpes de facão – ora mergulhado em vale profundos, ora responsando na cumiada das serras, a passo incerto e desengonçado . . . a caravana ruidosa do progresso, “madrinha” à frente dindilhando a campânula de prata e espaventando a bizarria de suas fitas multicores. A rancharia tem já pretensões a arraial. Improvisa-se a primeira estalagem. Canta o primeiro malho na bigorna. O primeiro mascate põe têrmo às suas andanças e abre a primeira porta. No alto da colina, a cavaleiro do ribeirão, apruma-se um cruzeiro. O arruamento primitivo, á apelidado de “Rua Nova”, estende-se na ilharga da colina, transpõe o ribeirão e, progredindo no rumo da antiga vereda dos tropeiros, que se dirige para o sul, abre-se um largo no meio do qual, pequenina e humilde, construída de taipa e coberta de indaiá, já se ergue a primeira capelinha sob a proteção de Nossa Senhora das Mercês. É o arraial do Cágado. Acaba de surgir, timidamente, para a grande aventura política de todos os aglomerados humanos. Quem poderá prever, naquela hora imprecisa, o seu destino? Crescerá, será rico, populoso, feliz? Ou desaparecerá, como tantos outros arranchados de tropeiros, ingloriamente, na voragem do tempo e dos fenômenos sociológicos? Mas o pequenino burgo palpita de vida e marcha confiante para o futuro. Por que o chamam de arraial do Cágado se surgiu às margens do ribeirão São João? Quem, realmente, o fundou e em momento da vida política nacional ocorrera aquele fato? As respostas pouco importam. Surgira, a flux, da terra que sempre retribuirá generosamente o sacrifício dos que a fecundarem com o seu trabalho. Seu nome? – O de um rio cujas nascentes talvez fossem, naquela época, confundidas com as de seu pequenino tributário: o ribeirão de São João. Seus fundadores? – Dois misteriosos pioneiros pertencentes àquela geração de homens fortes e resolutos que plasmaram com sangue, suor e esperanças a imagem da Pátria.
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